A Constituição comunista vendida aos radicais de fralda

Está na moda tentar descontextualizar coisas do passado com base em mudanças ocorridas na sociedade ao longo das últimas 4 décadas. Manipulados por formadores de opinião, gerações mais jovens passaram a problematizar fatos ocorridos antes mesmo deles nascerem.

Na época em que a série “Friends” foi ao ar pela primeira vez, de 1994 a 2004, Eliza Franco era uma criança. Só agora, aos 19 anos, ela descobriu a icônica série sobre seis amigos que vivem em Nova York. E ficou bastante incomodada.

Quando um sujeito faz graça de um homem que trabalha como babá, ela identificou “homofobia”. Ao ver uma personagem sendo alvo de bullying por estar com uns quilos a mais, decretou: “gordofobia”. Eliza também não gostou do fato de uma mulher loura aparecer representada como “a burra do grupo”. E estranhou a falta de negros.

O problema é que jovens com menos de 30 anos estão tentando problematizar eventos, comportamentos e hábitos considerados normais há algumas décadas. A tentativa de desconstruir as gerações passadas vai bem além das tentativas de demonizar ou ridicularizar a cultura de seus pais e avós. Nesta nova onda de mi mi mi, nem mesmo o desenho do  “Pica-Pau” escapa.

O Brasil da Rogéria, do Clodovil, dos tempos em que Otávio Mesquita fazia a cobertura dos bailes no Gala Gay dos anos 80 ao vivo para a TV, virou o país da problematização da sexualidade. Ser gay, gordo ou negro virou um ato político explorado por defensores e críticos com a mesma falta de dignidade. O ser humano, dependendo de sua cor, raça, opção sexual ou até mesmo sua forma física, acabou se tornando um problema para muitos. O que antes era tudo gente, agora virou uma sopa de nomenclaturas difícil de ser assimilada. O estímulo à criação de uma ‘consciência’ por parte de grupos nada mais é do que um processo de recrudescimento da seletividade e do preconceito. Neste cenário, oportunistas se apropriam de bandeiras e até inventam algumas inexistentes para faturar em cima dos radicais de fralda.

O problema é que esta geração está perdendo completamente a noção das coisas e está se tornando cada vez mais comum manifestações de ódio nas redes sociais, onde pessoas dizem abertamente que odeiam brancos em resposta a insinuações maldosas contra negros, gays, gordos, etc. Ninguém se dá conta sobre a necessidade de se respeitar qualquer ser vivo composto por células. Este não é definitivamente o caminho mais indicado para um processo civilizatório. A sensibilidade está na consciência. A sensibilidade propriamente dita dos cinco sentidos. Uma consciência, comum a todos, recebe estímulos sensoriais hostis como qualquer outa, independente da raça, riqueza, beleza estética ou condição social. Ofender um ser humano é espetar uma lança na consciência. Qualquer pessoa sente. É feio ridicularizar um ser humano. Quem faz isso com base em critérios como cor, religião, opção sexual ou padrão social é um ser humano ridículo.

Mas o bullying dos radicais de fralda não está restrito aos padrões culturais de gerações anteriores, aos ‘diferentes’ deles ou aos que fazem de suas vidas o que bem entendem. Manipulados por oportunistas de plantão, buscam agora problematizar soluções adotadas no passado político do país, como a Constituição de 1988, fingindo ignorar a realidade do Brasil naquele espaço e tempo. Há exatos 33 anos chegava ao fim o regime militar que perdurou no país por 21 anos. No dia 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves foi eleito presidente, dando início à retomada da Democracia do Brasil. Um ano depois, o país passou por eleições gerais, nas quais foram eleitos 49 senadores e 487 deputados federais. Estes parlamentares foram eleitos pelos ventos que sopravam o país naqueles tempos, que ainda vivia sob o fantasma da censura. Três anos mais tarde, foram estes mesmos parlamentares escolhidos pelo povo os responsáveis pela derrubada da censura, a retomada na liberdade de expressão, de reunião e a proibição da tortura.

Ignorar que tais fatos estejam totalmente relacionados com o espírito político daqueles tempos e tentar problematizar decisões tomadas por toda uma nação há tanto tempo não apenas parece uma estupidez enorme como é de fato uma estupidez enorme, pois tudo fez parte do processo político do país como um todo. É a história do Brasil, gostem ou não. Embora os radicais de fraldas discordem do postulado no qual “Ninguém será submetido a tortura ou a tratamento desumano ou degradante”, esta tomada de decisão representa um marco no processo civilizatório do Brasil, assim como ocorreu em praticamente todas as democracias do mundo. ~

Um mês após estas conquistas da sociedade brasileira, foi aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte em 22 de setembro de 1988 e promulgada em 5 de outubro de 1988, a Constituição da República Federativa do Brasil. Coube aos 49 senadores e 487 deputados federais eleitos democraticamente pela maioria dos brasileiros aprovarem a Carta com a lei fundamental e suprema do Brasil, que serve até os dias de hoje como parâmetro de validade a todas as demais regras normativas, ocupando o topo do ordenamento jurídico. Desde a primeira Constituição, datada de 1891, o Brasil adotou o sistema de governo presidencialista. O regime foi mantido na Constituição de 1988 e ainda confirmado por plebiscito em 1993. O impeachment também foi revisto na Constituição de 1988. A Carta Magna também reestruturou os Poderes da República e fortaleceu o Ministério Público, transformando-o em um órgão independente, autônomo e detentor da prerrogativa da ação civil pública

Criticar um retrato da sociedade de décadas atrás, tentado problematizá-lo com base nos desafios dos dias de hoje, além de improdutivo, é insensato. Duas condutas que denotam falta de inteligência. É pena que oportunistas tenham conseguido vender tão bem seu ‘inconformismo’ providencial aos radicais de fralda estridentes das Redes Sociais. O mais curioso é que aqueles mesmos que exploram idiotas politicamente, que não abrem mão de seus foros privilegiados nem de seus auxílios-moradia, jamais chegaram a propor um Plebiscito Popular por uma nova Constituinte, a única solução prática e viável para aqueles que se sentem realmente incomodados.

Em alguns aspectos, a Constituição precisa passar por alterações. A maioria deles decorrentes de desafios da modernidade, como a evolução dos mercados, a inovação tecnológica e outros gargalos que podem ser perfeitamente ajustados por meio de Proposta de Emenda Constitucional (PEC), como a PEC 241, que limitou o teto dos gastos da União, obrigando governos a cumprirem com mais rigor a Lei de Responsabilidade Fiscal pelos próximos 20 anos. A Constituição de 1988 também estabeleceu os monopólios da exploração do subsolo, do minério, do petróleo, dos recursos hídricos, do gás canalizado, das comunicações e do transporte marítimo. A quebra do monopólio da exploração de petróleo ocorreu menos de dez anos depois, estipulada pela lei 9.478, de 6 de agosto de 1997, que criou um ambiente propício aos investimentos em exploração e produção de petróleo no país.

A História está em curso e a trajetória da sociedade pode ser alterada a qualquer momento com base autodeterminação dos povos, que é justamente o princípio que garante a todo povo de um país o direito de se autogovernar, realizar suas escolhas sem intervenção externa, exercendo soberanamente o direito de determinar o próprio estatuto político. O que não é compreensível é o excesso de mi mi mi dos radicais de fraldas em relação ao passado, que não pode ser mudado. Não é o mesmo que desligar o Netflix na hora do “Pica-Pau”.

Imprensaviva

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