Epitácio Cafeteira e os bailes de máscaras

Estamos na reta final do Carnaval, portanto, nada mais apropriado para abordar um assunto recorrente em São Luís: os bailes de máscaras que as novas gerações maranhenses não conhecem, mas ouvem falar pelo marcante sucesso que fizeram nesta cidade, que desapareceram, deixaram saudades e ainda são evocados pela maneira como eram realizados e pela atração exercida sobre os foliões.

Os bailes de máscaras eram festas essencialmente populares, promovidas em casas localizadas no centro da cidade, que se iniciavam no Réveillon e prolongavam-se até o tríduo de Momo. Nas festas, as mulheres usavam máscaras, que serviam para encobrir o rosto, causavam mistérios e funcionavam como fetiches. Em sua grande maioria, eram recrutadas nos bairros da cidade, portanto, pertenciam aos estratos pobres. Mas um bom contingente delas provinha das classes médias e altas e radicadas no centro urbano, pontificando as mal casadas, balzaquianas, solteiras, prostitutas e os qualhiras disfarçados.

As mulheres não pagavam para entrar nos bailes. Este ônus recaia sobre os homens, que para ali se dirigiam, alguns, em busca de diversão e passa tempo, outros, a maioria, para arrebanharem as mascaradas e com elas combinarem encontros amorosos ou programas sexuais.

Diante de uma realidade carnavalesca tão própria, que não encontrava similar em nenhuma parte do país, uma pergunta se impõe: por que os bailes de máscaras, que se constituíam em atrações e galvanizam as atenções de homens e mulheres do Maranhão, sumiram ou deixaram de acontecer na vida mundana da cidade?

Vamos aos fatos. Nas eleições de outubro de 1965, o povo de São Luís, depois de muitos anos sem eleger o seu prefeito, voltou a ter o direito de escolhê-lo graças à iniciativa do deputado federal Epitácio Cafeteira, que se beneficiou da situação, elegendo-se para a prefeitura da capital maranhense.

Sem que a população imaginasse ou adivinhasse, Cafeteira, nos primeiros dias de janeiro de 1966, anuncia pelos jornais a assinatura de um decreto, aliás, inesperado e impensado, proibindo taxativamente a realização dos bailes de máscaras, sob a justificativa de que os mesmos “ocorrem em ambientes que não possuem associados legalmente, razão pela qual é preciso o poder público agir em defesa dos costumes e da moralidade da comunidade”.

O decreto de cunho demagógico e de falso moralismo explodiu como bomba na cidade, causando imediata discussão e polêmica, especialmente porque nenhum gestor, nessa matéria, nomeado ou eleito, havia ousado tanto.

Em torno do assunto, setores da imprensa, do clero e da sociedade se posicionaram. Uns, contrários, (O Imparcial), outros, a favor (Jornal Pequeno). Monsenhor Ladislau Papp e o Movimento Familiar Cristão, em nome dos segmentos católicos, entraram firme no caso em apoio a Cafeteira.

Diante do implacável decreto, os promotores dos bailes, apavorados com os iminentes prejuízos, contrataram advogados e pleitearam na Justiça a revogação da medida do prefeito.

Pressionado pelos políticos e pela mídia, o secretário de Segurança, coronel Antônio Medeiros, decidiu assinar Portaria, avocando a competência para disciplinar o funcionamento das festas populares, assegurando aos promotores dos bailes de máscaras o direito de realizá-los. O deputado Clodomir Millet e o vice-governador Antônio Dino usaram a televisão e as emissoras de rádio, através das quais desfecharam combate ao esdrúxulo ato do prefeito.

A decisão do coronel Medeiros foi repelida pelo prefeito, que, imediatamente, interpôs recurso na Justiça, no pressuposto de que era da Prefeitura e não da Secretaria de Segurança a competência de zelar pelos costumes e fiscalizar as diversões públicas.

Enquanto a polêmica dominava a cidade e a Justiça, como sempre morosa e hesitante, ganhava tempo, Cafeteira, do alto de sua esperteza, coloca nas ruas os blocos e escolas de samba, financiados pela municipalidade, para expressarem o descontentamento contra a Secretaria de Segurança e manifestarem apoio ao seu decreto.

Foi o bastante para o governador José Sarney entrar de cabeça no episódio, no entendimento de que a passeata, preparada sob os auspícios da Prefeitura, era provocativa e procurava jogar a opinião pública contra as autoridades constituídas. Por isso, solicitou ao comandante do 24º Batalhão de Caçadores, coronel Alberto Braga, a instauração o inquérito policial-militar para apuração do fato, que visava à desobediência coletiva ao cumprimento da Portaria da Secretaria de Segurança.

Passaram-se os dias e a temporada carnavalesca exauriu-se sem que a Justiça julgasse e o IPM concluísse as investigações. Resultado: os bailes de máscaras, embora garantidos pela Portaria da Secretaria de Segurança, funcionaram apaticamente e sem o brilho e a animação dos anos anteriores, fatos que resultaram na eutanásia daquelas festas, levando-as, daí por diante, ao desaparecimento definitivo da cena e da folia maranhense.

Em tempo: foram os bailes de máscaras que determinaram o rompimento pessoal do governador José Sarney com o prefeito Epitácio Cafeteira. Os dois só vieram apertar as mãos em 1985, quando da formação da Aliança Democrática.

Por Benedito Buzar (professor e escritor membro da Academia Maranhense de Letras)

 

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