Enquanto a Polícia Federal age de forma discreta, a PGR quer holofotes

Há poucos meses, no auge das bandalheiras do ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot, a Polícia Federal desligou os procuradores da República da força-tarefa da Operação Lava Jato. A medida visava conter os vazamentos atribuídos aos pupilos de Janot no MPF e evitar a autopromoção midiática que estava em curso.

Os procuradores estavam exagerando no número de entrevistas e postagens nas redes sociais, com as velhas frases de porta de banheiro, do tipo “A corrupção destrói o pais”, blá, blá, blá, enquanto investigadores da Polícia Federal enfrentavam dificuldades em combater os crimes no mundo real.

Enquanto ficaram de fora da Lava Jato, que não quis se contaminar com o acordo criminoso firmado por Janot com os criminosos da JBS, os procuradores passara dias a fio no facebook se lamentando e tentando preencher o vazio de suas vidas com postagens em apoio a Janot e com ataques ao governo Temer.

Após um longo período de castigo e o fim do mandato de Janot na PGR, a Polícia Federal resolveu reintegrar a equipe do Ministério Público Federal do Paraná à força tarefa da Operação Lava Jato. Mas desde então, as coisas mudaram muito na maior investigação sobre corrupção do país. Os critérios de sigilos sobre as Operações foram redobrados e a contenção de vazamentos passou a contar com um serviço de inteligência interno.

Pelo visto, a nova Lava Jato não está agradando os meninos de Janot. Os procuradores da República foram procurar a Folha para reclamar da falta de “estratégia de comunicação” da Lava Jato, e afirma que a investigação caiu no esquecimento popular. Quem afirma são os procuradores da força-tarefa de Curitiba Deltan Dallagnol e Carlos Fernando dos Santos Lima.

Folha – De que forma a Lava Jato revolucionou o que se entendia como investigação?

Deltan Dallagnol – A investigação permitiu alcançar resultados inovadores em razão de um grande apoio da sociedade, de uma série de lances de sorte e de um novo modelo de investigação. Dentro desse novo modelo, tem quatro pilares. O primeiro é o de colaborações premiadas, o segundo de cooperação interna e internacional, o terceiro de estratégia de fases e, em quarto lugar, exatamente o da comunicação. Dentro da comunicação, esse caso inovou porque é impossível avançar contra interesses tão poderosos sem o apoio da sociedade. Além disso, quando se tornam investigados políticos relevantes, muitos deles dominando máquinas de comunicação em seus Estados, que estão acostumados a se defender, acusando e buscando tirar a credibilidade de quem os investiga. Existem muitas notícias falsas que começam a circular. Dentro desse ambiente é essencial uma maior transparência e ampliar e fortalecer os canais de comunicação, defende Dallagnol.

O procurador Carlos Fernando é outro que se queixa do novo formato da Lava Jato, mais mortal e silenciosa: A partir do momento que você permite a publicidade, dá a oportunidade para concordarem ou não com o que foi feito. É claro que vai gerar críticas por ter optado por uma política de comunicação, mas os criminalistas usam e abusam de uma política de comunicação de seus interesses. Nós ficaríamos muito indefesos se também não tivéssemos uma política ativa, afirmou Carlos Fernando.

Folha – Como seria o cenário da Lava Jato se não houvesse uma política de comunicação tão forte?

Carlos Fernando: Pergunto normalmente em palestras quais foram os fatos da Operação Castelo de Areia a ser derrubada? As pessoas não sabem. O não saber é muito perigoso porque oculta manobras muito graves. O que acontece se não tivesse o e-proc, baixa de sigilo, entrevistas? Tudo teria sido eventualmente morto num habeas corpus qualquer, como tantas operações no passado.

Folha – Os senhores pretendem atuar junto à sociedade civil em campanhas para 2018?

Carlos Fernando: Estou me encaminhando para me retirar da Lava Jato e me aposentar assim que possível. Existem essas medidas novas, analisadas pela Fundação Getúlio Vargas, e todos estamos dispostos a lutar pessoalmente por mudanças, afirmou o procurador, dando a entender que ele e seus colegas podem se candidatar nas próximas eleições.

Com informações da Folha

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