Rodrigo Rocha Loures – O fim do mistério do “homem da mala”

Uma das mais misteriosas tramas entre as engendradas no coração da Procuradoria-
Geral da República começa a ser redesenhada pelos novos fatos que vieram à tona
após a prisão do criminoso Joesley Batista e de seu cúmplice, o diretor de relações
institucionais da JBS, Ricardo Saud. Antes mesmo de seu pronunciamento sobre o assunto, o papel do ex-assessor do presidente Michel Temer, Rodrigo Rocha Loures na trama pode ser definitivamente esclarecido.

Flagrado correndo com uma mala com R$ 500 mil pelas ruas de São Paulo, Rocha Loures foi apontado pela PGR como intermediário de valores que deveriam ser repassados ao presidente Temer. Esta é a versão que consta na primeira denúncia formulada pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot, contra Temer. Mas ao que tudo indica, a versão pode não ser bem esta que Janot e Joesley Batista tentaram impor no calor do vazamento do acordo de  delação da JBS, amplamente explorado pela imprensa nos idos de maio.

Circulam informações nos corredores da PGR que Joesley Batista e Ricardo Saud
teriam abordado Rocha Loures com a promessa de lhe dar R$ 500 mil, caso
conseguisse agendar um encontro entre Joesley e Temer. O então assessor do
presidente teria perguntado: só isso? Saud teria garantido que sim e informado que
Joesley não queria acionar outros contatos, como o ministro da Fazenda, Henrique
Meirelles, para não criar embaraços.

A trama envolvendo Rocha Loures não era diferente daquela revelada na gravação
acidental entre Joesley Batista e Ricardo Saud sobre envolver o ex-ministro da Justiça,
José Eduardo Cardozo numa ação para gravar ministros do STF. O modus operandi
seria o mesmo, inclusive com a perspectiva de entregar a participação de Cardozo
posteriormente. Cardozo chegou a jantar na casa de Joesley para tratar do assunto e
foi gravado pelo dono da JBS na ocasião. Isto significa que a trama revelada na
gravação foi efetivamente colocada em prática.

O caso envolvendo Rocha Loures foi exatamente o mesmo. Assim como Joesley e
Ricardo Saud tramaram atrair José Eduardo Cardozo propondo que gravasse
autoridades para depois fritá-lo, convenceram Rocha Loures que ele receberia R$ 500
mil apenas para conseguir um encontro com Temer. A versão sobre os fatos
apresentada posteriormente pelos partícipes da trama foi então adaptada para aquilo
que queriam que parecesse.

Mas esta não é a única similaridade entre outras ações concebidas dentro da PGR. Na
véspera do encontro com o presidente Michel Temer, Joesley teve um encontro com o
então procurador-da República Marcello Miller, o especialista em treinamento para
gravações de Rodrigo Janot. Miller tem um histórico respeitável neste quesito.
Orientou o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, a gravar conversas com
políticos do PMDB. A gravação serviu de base para a denúncia apresentada por Janot
contra integrantes do governo Temer, como Romero Jucá.

Miller também esteve envolvido na gravação de Bernardo Cerveró, filho de Nestor
Cerveró em junho de 2016, bem antes da delação da JBS entrar no radar da PGR.
Miller instruiu Bernardo a gravar uma conversa com o então senador petista Delcídio
do Amaral, na qual o ex-senador oferecia um acordo para que seu pai, Nestor Cerveró,
não fechasse um acordo de delação premiada em troca de pagamentos mensais de R$
50 mil no exterior.

Os métodos da PGR de Janot e Miller acabaram se fundindo mais tarde aos métodos
de Joesley Batista e Ricardo Saud da JBS, mas diferentemente da primeira experiência
na forja de provas, as gravações feitas por Sérgio Machado e Joesley Batista foram claramente orientadas no sentido de obter algum diálogo que comprometesse seus interlocutores.

Esta é provavelmente a versão que deve começar a prevalecer, na medida em que os
fatos começarem a ser esclarecidos pela nova procuradora-geral da República, Raquel
Dodge e o depoimento do próprio Rodrigo Rocha Loures. Neste caso, Janot e Marcelo
Miller, juntamente com os açougueiros da Friboi podem se tornar alvos de novas
denúncias e de pedidos de prisão por parte da PGR.

A Polícia Federal já identificou que o gabinete de Janot não só tinha conhecimento de
que Miller trabalhava para a JBS como sabia que ele vinha atuando “de forma
indireta” no acordo de delação premiada firmado pela cúpula da empresa.

As evidências disso, de acordo com os policiais encarregados da investigação estão em uma série de mensagens do WhatsApp encontradas no celular de Marcelo Miller, que participava de um grupo de fechado de conversas com os irmãos Batista e diretores da JBS.

 

Imprensaviva

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *