Ao acusar Sarney de “corrupção passiva e lavagem de dinheiro”, Janot parece fazer birra contra ex-presidente

O ex-presidente da República José Sarney (PMDB) terminou a semana numa situação em que poderá ter fortes dores de cabeça, mas que dificilmente evoluirá para um tombo político ou coisa parecida. Ele foi denunciado, na sexta-feira (25), pelo ainda procurador geral da República, Rodrigo Janot, ao Supremo Tribunal Federal (STF), por “corrupção passiva e lavagem de dinheiro”, juntamente com os senadores Renan Calheiros, Romero Jucá, Waldir Raupp, Garibaldi Alves, todos do PMDB, e o ex-presidente da Petrus, Sérgio Machado, que os delatou.

Aos 87 anos, sem mandato, mas ainda exercendo forte influência no PMDB e no cenário político nacional como um todo, o ex-presidente foi acusado de receber propina milionária da Petrus para bancar sua última e vitoriosa campanha ao Senado da República pelo Amapá e também a corrida fracassada da ex-governadora Roseana Sarney (PMDB) ao Governo do Maranhão em 2006. Nada há de prova concreta, material, que dê sustentação à delação de Sérgio Machado em relação ao ex-presidente da República, que já foi inocentado da acusação de atentar contra a Operação Lava Jato e obstruir em processos envolvendo seus aliados pemedebistas, com base em gravações de conversas feitas pelo ex-senador cearense.

Com a aparência de um caso pensado com o propósito de melar de vez a biografia de um dos políticos mais importantes do País na segunda metade do século passado, a denúncia de Rodrigo Janot contra está lastreada única e exclusivamente nas afirmações de Sérgio Machado. Nela, não há informações sobre mala de dinheiro entregue à Sarney, não se encontra relatos de que a dinheirama chegou ao ex-presidente em parcelas de tanto nestes e naqueles locais, não há qualquer informação de que Sarney tenha recebido pessoalmente pelo menos um pacote, um envelope ou uma cédula sequer da suposta propina incluída no pacote de denúncias contra os senadores pelo procurador geral da República em fim de mandato. Tanto que o advogado de José Sarney, o badalado criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, atacou a iniciativa do chefe da PGR afirmando que a denúncia está baseada numa “delação desmoralizada”, opinião compartilhada até mesmo por segmentos da Polícia Federal que a investiga e até mesmo em algumas vozes entre procuradores.

A suspeita de que a denúncia do ainda chefe do Ministério Público Federal esteja alimentando uma birra contra o ex-presidente da República ganha peso, a começar pelo fato de que as investigações feitas até aqui não resultaram em fatos concretos e irrefutáveis. Sarney já foi inclusive inocentado da acusação de atentar contra a Operação Lava Jato tentando obstruir a Justiça em processos envolvendo seus aliados pemedebistas. Sobraram as declarações de Sérgio Machado sobre o suposto repasse de propina, que deram a Rodrigo Janot a oportunidade de metralhar o ex-presidente, misturando-o com Calheiros, Jucá, Raupp e Alves, do modo a impingir-lhe a pecha de corrupto, algo que seus adversários políticos mais duros conseguiram fazer nos períodos mais críticos das guerras que travaram contra ele. Antes, durante e depois de exercer a presidência da República, José Sarney foi duramente atacado como um líder político sedento de poder, que articula, arma e trama para minar seu adversários, mas ninguém o acusou, com dados concretos, de ser corrupto e de praticar violência como arma política. Não há, portanto, registros contendo indícios consistentes e inquestionáveis de que ele tenha sido pilhado com a mão no jarro, beneficiando-se de dinheiro público. Quando presidente, algumas suspeitas atingiram fortemente seu Governo, mas em nenhum delas o envolveu, no todo ou em parte.

No caso da delação do ex-presidente da Petrus, o que está sendo  investigado é um suposto esquema de desvio para bancar campanhas do PMDB e do PT. Nesse contexto, não é descartável a possibilidade de que quantias elevadas tenham sido repassadas à agremiação pemedebista e que parte delas tenham turbinado campanhas de Sarney e aliados no Maranhão e no Amapá. Mas daí a apontá-lo como um corrupto passivo e lavador de dinheiro sujo há uma distância imensa. É claro que petardos como esse disparados contra sua biografia, que ele protege com obstinada determinação, mexem com a sua vaidade política, mas com a sabedoria acumulada ao longo de quase 90 anos, poucos duvidam de que o ex-presidente sairá ileso. Por falta de provas.

Do Blog Repórter Tempo

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